Ostra feliz não faz pérolas.

Posted segunda-feira, 5 de abril de 2010 by Hannar
''Havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão…”. Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro de sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de suas asperezas, arestas e pontas, bastava para envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou-a e deu-a de presente para a sua esposa.

Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos. No seu ensaio sobre O nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzche observou que os gregos, por oposição aos cristãos , levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer. Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um homem completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, e tantos homens e mulheres que precisaram no momento em que o grão de areia invadiu a sua casa, para suportar as arestas dos intrusos, começou a canta uma música, embora triste, mas bonita, bonita.''

                                                                   Ostra feliz não faz pérola - Rubem Alves. 



Esse cristianismo que nos evita tragedia para nos prometer uma comedia futura, eu nao quero, porque isso nao é humano, a mim nao interessa uma religiao que venha me intorpecer a alma e me fazer esquecer as diciculdades da vida para me projetar numa esperança futura de céu. O cristianismo começa é na rocha, no calvário. Jesus entra no mundo pela força da dor, e se despede também pela dor, e se nós temos a honra de dizer que nosso Jesus é rei, nunca se esqueças que esse teu rei é coroado de espinhos !
Nós só poderemos reconhecer a glória e essa beleza da tristeza se nós descobrirmos este revestimento de alma que nos assemelha aos artistas com sua capacidade maravilhosa de revestir o cotidiano de uma beleza nobre. Deus faz questao de estabelecer sua tenda nos calvários da humanidade e é la que precisamos descobrir que a sarsa, a mesma que ardeu nos olhos de moisés, continua ardendo diante de nossos olhos hoje e a cena não é tao bonita quanto parece. Religião se não é para nos ensinar a enfrentar as tragedias da vida, ela nao serve pra nada, ela nos aliena,e nos coloca numa projeçao futura de um futuro que nao chega, de uma realidade etéria que nao se aproxima de nada que é nosso.
Quando cortamos o dedo, é possivel sentir o milagre de Deus sendo realizado numa carne que se cicratiza aos poucos,mas aos poucos. Deus não fere a ordem humana, se cortou, terá que passar pelo processo de cicatrização, é humano. A graça de Deus nos reveste para que tenhamos a sensibilidade do artista.
A leitura mais fácil diante da tragedia, é a pessimista. Ser pessimista não da trabalho nenhum, porque o pessimismo nao nos move para encontrarmos motivos para continuar. O pessimismo é a resposta mais simplória que podemos dar aos problemas da vida, e atrelado a ele, a experiencia do ódio. Quando voce odeia, nao tem trabalho nenhum,não requer aperfeiçoamento humano odiar porque o ódio é uma resposta natural, diferente do amor. O amor fere.
Camões tinha razão quando disse que o amor é dor que desatina sem doer, não é facil de entender, porque aparentemente é contraditório. Não é discurso lógico. Discurso lógico é discurso pessimista, ele convence. O discurso da fé passa o tempo todo pela sugestão. Fé é uma espécie de intuição. 

Eu não sei dizer porque eu acredito em Deus, eu não sei dizer. O que eu sei é que no momento em que mais me sinto frágil, no momento da invasao da areia na minha casa, no momento da luta que preciso estabelecer, eu creio. Alguma coisa dentro de mim me joga pra fora de mim mesmo, e eu não aceito o pessimismo do momento, dos idiotas que estão de plantão. Eu creio porque no momento da dor Deus me segura, a partir da minha mente, do meu bom senso, da minha crença, a partir do amor que eu amo, do perdão que eu perdôo.  Não queira me pedir as razões de minha fé porque eu não sei dar, o que eu sei é que eu creio, e isso resolve o conflito, da mesma forma como Chicó, diante de João Grilo, personagens de Ariano Suassuna, quando João Grilo insiste em saber: Como foi que aconteceu tudo isso Chicó ?
E Chicó responde cheio de fé:
Não sei, só sei que foi assim !

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